Uma região marcada por tensões e disputas territoriais no século 20 iniciou neste sábado (8) o mandato como capital europeia da cultura em 2025.
As cidades de Gorizia, na Itália, e Nova Gorica, na Eslovênia, dividem o título com Chemnitz, na Alemanha, para transmitir uma mensagem de união entre dois municípios separados apenas por uma imaginária linha de fronteira.
"Em um mundo caracterizado por crescentes tensões e conflitos, pelo abandono da cooperação internacional como elemento fundador da vida internacional, Eslovênia e Itália souberam demonstrar que é possível escolher o caminho da cooperação", disse o presidente italiano, Sergio Mattarella, durante a cerimônia de inauguração da primeira capital europeia da cultura transfronteiriça.
Em seu discurso, o chefe de Estado ainda fez uma defesa do "valor histórico da União Europeia", onde "diferenças e incompreensões deram lugar a fatores que nos unem" e os "valores da convivência e do acolhimento" se opõem ao "obscurantismo".
"Ser capital europeia da cultura transfronteiriça significa ter a coragem de ser portadora de luz e confiança no futuro do mundo, onde se difundem sombras, incertezas e medo", salientou.
Já a presidente da Eslovênia, Natasa Pirc Musar, disse que a união de Nova Gorica e Gorizia "simboliza paz, liberdade, ótimas relações, colaboração e respeito".
O dia, no entanto, também foi marcado por um ato de vandalismo na "foiba" de Basovizza, local símbolo do "Massacre das Foibe", um dos episódios mais trágicos relacionados ao pós-guerra na Itália.
Vândalos picharam frases em esloveno que diziam "Trieste é nossa" e "Trieste é um poço", em referência à capital da região italiana de Friuli Veneza Giulia, também na fronteira com a Eslovênia. "Nada pode fazer voltar atrás a história que Eslovênia e Itália construíram e constroem juntas", destacou Mattarella.
O "Massacre das Foibe" ocorreu após o fim da Segunda Guerra Mundial, quando milhares de pessoas que se opunham à anexação de parte de Veneza Giulia pela antiga Iugoslávia comunista foram assassinadas pelo Exército do marechal Josip Broz Tito.
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As vítimas eram jogadas com ou sem vida em poços formados pela ação da água no solo, chamados na Itália de "foibe" - no singular, "foiba". Estimativas apontam que de 5 mil a 17 mil italianos morreram na perseguição iugoslava, sendo que a maioria residia na cidade de Trieste e nas regiões croatas de Ístria e Dalmácia. A disputa fronteiriça se resolveu de forma definitiva apenas com um tratado assinado em 1975.
O massacre foi negado durante muito tempo por parte da esquerda italiana, e o Dia da Lembrança foi instituído apenas em 2004, sendo celebrado anualmente em 10 de fevereiro.
"A foiba de Basovizza é um lugar sacro, um monumento nacional a ser honrado com silêncio e oração. Ultrajar Basovizza, ainda mais com frases repugnantes que remetem a páginas dramáticas da nossa história, significa ultrajar toda uma nação", disse a premiê italiana, Giorgia Meloni.
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